segunda-feira, 5 de novembro de 2012


Difícil não perceber a catástrofe que ficou por aqui desde que você resolveu seguir sua trajetória hollywoodiana cheia de glamour e autodestruição. Eu fui um idiota em não tentar destruir seus sonhos ligando pra sua escola de Arte e dizendo que você tinha morrido em um trágico acidente enquanto assistia você amarrada em minha cama sem conseguir se mover, chorando e provavelmente pensando no quanto eu era louco. Parece doentio, mas doentio mesmo é saber que por pura covardia, eu abri mão de você. Como se não bastasse o meu instinto de auto-desprezo, na minha mente ainda martela a lembrança de você chegando silenciosamente em minha casa enquanto eu cozinhava para nós dois, assustadoramente ansioso por notícias boas, notícias que nos dariam um futuro melhor, notícias que mudariam a nossa história para sempre. E realmente mudou. Não quero entrar em muitos detalhes sobre os gritos, choros, frases de Tim Maia e um por quê não respondido, mas preciso falar sobre como eu fiquei anestesiado quando você me perguntou "Quer ir comigo?". Como eu poderia largar tudo e ir pra Portugal com você? Eu também tinha uma vida, sabia? Tinha sonhos - embora a maioria fosse com você -.
Abri mão de você, abri mão de nós, estou um lixo, mas sei que você estará bem. Daqui a alguns anos, você conhecerá um português que não conta piadas tão bem quanto eu, mas que te dará tulipas todas as manhãs e levará um café amargo bem quentinho do jeito que você gosta. Você pensará em mim, pensará por onde estarei fotografando, sentirá saudades de me contar sobre sua nova peça e tentará me contactar. Provavelmente eu estarei em Bagdá, fotografando a guerra por lá, você não conseguirá falar comigo, mas eu estarei pensando em você.


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