quarta-feira, 28 de novembro de 2012


Eu quero você! E quero da forma mais caótica possível. Quero-te por inteiro, sem receios e sem fugas, pelo menos dessa vez. Você pode ir embora depois, se quiser, mas que sejas pleno e dedicado enquanto estiver em meu espaço. 
Quero você da cabeça aos pés, mas pode guardar o seu coração, eu não preciso dele. Entenda que não se trata de sentimento, e sim, de finalização. Eu não preciso do seu telefone na minha agenda, basta você ter o meu e saber o caminho da minha casa. Não preciso que ponhas dinheiro em minha conta e nem me leves para jantar, preciso apenas da chave do seu apartamento e permissões para, sempre que houver vontade, eu entrar.
Quero uma viagem marcada e ocupações por uma semana inteira. Quero cama e banheira, chão e cozinha, mesa e cadeira. Quero convites inusitados, banhos demorados e olhares disfarçados, afinal, ninguém precisa saber do nosso caso. Podemos ser segredo, medo, parceiros. Que tal?
Convença-me de que tens algo melhor para fazer e eu mudarei minhas opções. Mas eu sei, seu corpo me chama para uma maratona em uma cama de solteiro e o meu concorda. O dia tem pressa em terminar e há assuntos para resolvermos. Aceite o que o desejo pede porque o tempo não vai nos esperar.

(Isabel Ribeiro)

sábado, 24 de novembro de 2012


Eu não sei o que é amor, entende? Não é nada pessoal. Não é que eu não goste de sua companhia e nem do seu macarrão ao molho, o fato é que a ideia de uma relação afetiva me apavora.
Cresci em um lar em que os sorrisos nos rostos só existiam nas fotografias, aqueles raros momentos em que toda a família se reunia para tentar disfarçar o caos que vivíamos diariamente. Eu confesso que gostava, era a única oportunidade em que via meus pais se abraçando e vivendo como um casal. Durava pouco tempo, mas isso sempre renovava a minha esperança.
Tenho medo e você não entende isso. Se eu não atendo sua ligação, se eu não aceito seu convite para sair, se eu não durmo na sua casa e se eu não conheço sua família é por puro medo. Eu não sei como retribuir esse afeto, eu não tenho alguém para te apresentar que te conte minhas histórias engraçadas e diga a você que sou uma boa menina. Eu não tenho nem um coração para te oferecer. Francamente, você ficará melhor sem mim.
Você tem uma vida pela frente. Suas viagens, seus amigos, seu curso de arquitetura e todo o seu sonho de formar uma família feliz. Eu tenho meu bar, meu violão, minha voz, e não acredito em felicidade. Tudo o que posso te oferecer é uma noite e nada mais. Amanhã não estarei mais aqui e espero que você não me procure. Aprendi que é mais fácil assim, menos doloroso. E tudo aquilo que não me causa dor, eu valorizo.


(Isabel Ribeiro)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012


Não lembro, exatamente, quando ela se tornou a mulher mais linda do mundo para mim. Talvez tenha sido no dia em que ficamos presos no elevador do nosso prédio e ela me acalmou como se eu fosse um bebê enquanto eu tentava respirar. Ou talvez tenha sido no dia em que o pai dela morreu e ela, desesperadamente, correu para o meu apartamento e ficamos assistindo filmes, comendo pipoca por 48 horas e ainda dormimos de conchinha. Mas, tenho quase certeza, que foi no dia em que ela me contou que estava namorando pela primeira vez, que eu percebi que ela era a mulher mais linda do mundo.
Tudo bem que, nem em sonho, eu sou o cara certo para ela, mas e daí? Entre um encontro e outro, ela sempre procurará como requisito em um novo namorado o que só encontrou no melhor amigo. Como um bom individualista, eu nunca tive planos de formar uma família com uma esposa, dois filhos e um cachorro poodle que comerá os meus sapatos, mas isso começou a fazer sentido desde que percebi que, durante toda a minha vida, ela esteve envolvida em meus projetos. Nunca a vi exclusivamente como uma irmã, eu sempre percebi que ela tinha jeito para namorada. Talvez não minha, mas dos outros. Embora vê-la agora como sendo dos “outros” é uma ideia absurda e desesperadora para mim.
Não sei como explicar a ela que de um dia pro outro eu percebi que estou apaixonado e passei a noite inteira chorando só em imaginar o casamento dela com outro cara. Isso soaria como uma piada e só pioraria a minha situação. Eu também não posso pedir que ela namore comigo porque não tenho nada a oferecer além de um chocolate quente, um apartamento apertado e um bilhete único.
As pessoas sempre disseram que um dia a gente iria se casar. É incrível como os adultos possuem essa capacidade para ver o amor nascer entre duas crianças e saber que ele só se relevará 15 anos depois. Seria mais fácil se a gente não tivesse crescido junto. Eu poderia ser esse cara que ela está conhecendo agora. Eu a chamaria pra sair, ela adoraria meu jeito descolado, eu me apaixonaria pelo sorriso dela e viveríamos felizes para sempre. Por que ser tão complicado?
Meu telefone toca, é uma mensagem dela dizendo: “Estou em nosso restaurante favorito! Vem pra cá, já fiz o nosso pedido”.
Talvez esse seja o nosso último jantar como amigos, talvez seja o nosso último jantar como conhecidos, mas será o primeiro jantar em que a tratarei e a verei como a mulher mais linda do mundo. A minha mulher mais linda do mundo.


(Isabel Ribeiro)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012


Difícil não perceber a catástrofe que ficou por aqui desde que você resolveu seguir sua trajetória hollywoodiana cheia de glamour e autodestruição. Eu fui um idiota em não tentar destruir seus sonhos ligando pra sua escola de Arte e dizendo que você tinha morrido em um trágico acidente enquanto assistia você amarrada em minha cama sem conseguir se mover, chorando e provavelmente pensando no quanto eu era louco. Parece doentio, mas doentio mesmo é saber que por pura covardia, eu abri mão de você. Como se não bastasse o meu instinto de auto-desprezo, na minha mente ainda martela a lembrança de você chegando silenciosamente em minha casa enquanto eu cozinhava para nós dois, assustadoramente ansioso por notícias boas, notícias que nos dariam um futuro melhor, notícias que mudariam a nossa história para sempre. E realmente mudou. Não quero entrar em muitos detalhes sobre os gritos, choros, frases de Tim Maia e um por quê não respondido, mas preciso falar sobre como eu fiquei anestesiado quando você me perguntou "Quer ir comigo?". Como eu poderia largar tudo e ir pra Portugal com você? Eu também tinha uma vida, sabia? Tinha sonhos - embora a maioria fosse com você -.
Abri mão de você, abri mão de nós, estou um lixo, mas sei que você estará bem. Daqui a alguns anos, você conhecerá um português que não conta piadas tão bem quanto eu, mas que te dará tulipas todas as manhãs e levará um café amargo bem quentinho do jeito que você gosta. Você pensará em mim, pensará por onde estarei fotografando, sentirá saudades de me contar sobre sua nova peça e tentará me contactar. Provavelmente eu estarei em Bagdá, fotografando a guerra por lá, você não conseguirá falar comigo, mas eu estarei pensando em você.