segunda-feira, 18 de março de 2013



Você ainda sente saudades de mim?
Ele disparou essa pergunta com todo o desespero que sufocou durante esse tempo em que tentou me manter longe ignorando tudo o que estava em suas mãos. É interessante ver os seus olhos lacrimejarem justamente quando isso já não me afeta mais.
– Não sei. – Eu respondo. ­– Realmente não sei.
A sensação da chegada de um novo outono faz com que a busca pela mudança surja dentro de mim. A nova estação é o momento da renovação. É chegado o momento de ver todas as folhas secas caírem, todas aquelas folhas em que o verde da esperança morreu, todas as folhas que simbolizam a alma de muitos, almas que vagam pela força do vento, mas que perderam a cor e podem se despedaçar facilmente apenas com um toque.
Durante muito tempo eu me senti como uma dessas folhas, mas hoje ao me deparar com a sua pergunta, eu senti que algo havia mudado. Inacreditavelmente eu não conseguia dizer que estava com saudades. Eu não conseguia, se quer, acreditar que essas palavras soariam como verdade, ainda que eu confirmasse por educação. Percebi que uma parte de mim estava morta e essa parte era você.
Seus olhos estão diferentes também. Talvez o outono também esteja te afetando e isso é bom, mas ainda faltam seus lábios e seu coração. O mundo não é só festa, pequeno e está na hora de você refletir em tudo que deixou passar e torcer para que a vida te dê uma segunda chance. O verde do mar é lindo, o azul do céu é um convite para voar, a música romântica não dá sono e o convite do amor é pra gente aceitar.
Eu realmente não sei o que restou, mas sei o que se perdeu.

(Isabel Ribeiro) 

domingo, 10 de março de 2013



Encosto-me lentamente na poltrona do meu carro e a observo procurar suas chaves na bolsa. Sua cara de preocupada demonstra que está claramente convencida de que as esqueceu no bar e agora está perdida sem saber como entrará em casa. Pega o celular desesperadamente e procura um número para pedir socorro, eu teria certeza de que meu celular tocaria daqui a 5 segundos se eu ainda estivesse em sua agenda telefônica. Questiono o porquê de ainda estar escondido dentro do carro ao invés de ajudar uma donzela em perigo. E a resposta vem claramente me dizer que o mesmo motivo que me mantem aqui sentado é a covardia que me fez deixa-la ir embora. Percebo que a sua tentativa de ajuda pelo do celular fracassou ao vê-la batendo os pés e fazendo cara de choro, maldito jeitinho teimoso que sempre me deixou na situação de um pai protetor. Levanto em um só impulso e saio do carro. Pego meu molho de chaves e vou em direção a ela sem saber exatamente o que dizer. Tenho a brilhante ideia de apenas erguer as mãos e mostrar as chaves, ela vai se lembrar de que não pegou a chave extra de seu apartamento que tinha dado pouco antes de pedi-la em namoro, mas a ideia fracassa quando ela percebe minha presença e logo pergunta: "O que está fazendo aqui?". Eu gostaria de dizer que estou ali para salvar sua vida, mas isso resultaria em muitas outras perguntas que eu não estou pronto para responder, gostaria de dizer também que ela está linda essa noite e que estou morrendo de saudades, dizer que eu errei e que a quero de volta em minha cama por  todos os dias da semana, mas apenas me limito a responder: "Você precisa de chaves. Aqui estão!". Natalie me olha com um olhar de detetive da série CSI e pega as chaves de minhas mãos. Suspira e sem me olhar nos olhos resolve estabelecer um diálogo já que estou parado como um poste em frente ao seu portão.
 Não acredito que ainda tenha a chave do meu apartamento. O que pretendia guardando isso? 
 Ela pergunta ironicamente.
 Não sei exatamente. Acho que sempre pretendi agarrá-la no meio da noite.  Eu sabia que não era o momento para piadas idiotas, mas eu só sei fazer isso e ela iria entender.
Nat ignora minha resposta com uma cara de quem não dá a mínima para o fato de eu estar ali e só gostaria de entender o porquê eu ainda não fui embora. Quando ela demonstra qualquer reação que fosse resultar em uma pergunta, eu a interrompo:
 Eu também não sei o que estou fazendo aqui em um sábado a noite e com as chaves da sua casa na mão. Não espero que você me convide para entrar, mas eu gostaria de conversar com você. 
 Eu sento-me no chão e pego em suas mãos. Ela me olha sem entender e eu continuo:  Você pode se sentar aqui? Olhe, eu coloco minha jaqueta aqui. Não vai sujar o seu vestido. 
Forro minha jaqueta no chão e como uma linda dama, ela se senta, recolhendo suas pernas para junto de si e fica em silêncio, sem me olhar ao menos um momento. Entendo que ela não estava preparada para isso e que a qualquer momento ela desabará em meus braços tudo o que sufocou durante muito tempo.
 Antes que você diga qualquer coisa, tenha consciência de que você já me fez mal demais para uma vida só. 
 Sua voz de choro me comove. Quero abraça-la, mas ainda não é o momento.
 Não quero te fazer mal, Natalie. Eu só quero ficar aqui, com você. Sentados. Quero sentir você perto novamente e ter, apenas por um minuto, a paz que não tenho desde que você foi embora. Quero te contar como foi meu dia no trabalho e ouvir você dizer que eu tenho força para superar e modificar qualquer coisa. Quero saber que você está aqui e não nos braços de um outro cara qualquer. Quero tirar a culpa, tirar o medo, tirar a solidão.
Eu pego em suas mãos, ela recua. Tento novamente e seguro firme. As lágrimas caem dos nossos olhos e ela se deixa cair em meus braços e sem dizer uma palavra, ela chora.
Eu afago seus cabelos em minhas mãos e sussurro em seus ouvidos: "Me perdoe! Eu percebi um pouco tarde que você é a única que me arranca sorrisos quando visitas meus pensamentos". Com seus olhos chorosos, minha pequena se levanta e pega minha jaqueta e coloca nos braços. Retira a chave de seu apartamento do meu mole de chaves e me devolve. Eu fico sem entender, quase imploro por uma palavra, mas sei que ela não está disposta a falar. Ela abre a porta do prédio, me olha bem nitidamente com seus olhos verdes e úmidos e diz:
 Boa noite, Daniel. Obrigada pelas chaves!
Ela fecha a porta e eu fico pateticamente sozinho às 3 horas da manhã em uma rua com 300 pontos de interrogações em minha cabeça. Penso em gritar e dizer que ela não pode me deixar assim. Eu não esperava por um silêncio, eu espera por gritos e palavrões e esperava por uma certeza de um sim ou de um não. Porém a única reação que tenho é entrar em meu carro e voltar para a minha casa em uma madrugada fria e sombria.
Chego em casa, a secretária telefônica apita. Uma mensagem. Boto para reproduzir.
 Hey, aqui é Daniel Wilson. Não estou, mas pode falar que respondo depois. Piii
 Dan? Aqui é a Natalie. Sua jaqueta ficou comigo e eu pensei que você poderia buscá-la amanhã... eu cozinharei. Bom, se quiser ficar pra jantar. Enfim... se cuide!

Diante de todo ecstasy que envolve meu corpo, eu só consigo sorrir ao saber que ela ainda guarda o meu número em sua agenda.

(Isabel Ribeiro)


Hoje matei a curiosidade que tinha a respeito de um filme chamado “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. É um ótimo filme, psicodélico e complicado assim como nós. A atuação de Jim Carrey está perfeita e a Kate está linda com seus cabelos coloridos e seu sorriso estonteante. São exatamente 3:30 da manhã e eu estou com uma vontade absurda de te ligar e dizer que hoje pela manhã não lembrarei mais de você, exatamente como Joe não se lembrou de Clementine. Gostaria que isso fosse possível, esse lance todo de te apagar de minha mente e pular essa parte de abstinência que me faz escrever textos que nunca enviarei para você. Hoje faz um ano que conversamos pela primeira vez. Uau! Passou tão rápido que tenho a sensação de que nada mudou. Não saímos do primeiro passo, não evoluímos, não nos tornamos nada que fosse relevante. E infelizmente isso não é apenas uma sensação.
Estou com saudades de você. E toda essa ideia de que estou te perdendo está me transformando em um zumbi. Não que um dia eu tenha te tido para te perder, nós nunca nos tivemos, mas eu sempre idealizei que um dia nós nos teríamos e seríamos felizes e ter que abandonar toda essa ideologia me faz infeliz, me deixa transtornada. Você não percebe que sou alguém melhor com você?
Eu gostaria de ter dinheiro agora para abandonar tudo e viajar. Eu iria pra Itália. Você sabe que sou apaixonada pela Itália, acho que já te falei isso. Eu visitaria todos os museus, todos os pontos turísticos e seria feliz por lá. Aprenderia a falar italiano, aprenderia a gostar de pizza e não iria querer dividir com você um momento tão mágico assim. Eu também gostaria de conhecer a neve, mas isso me faria querer você perto de mim. Esse negócio de frio deixa a gente solitária e eu não quero mais sentir saudades de você.
Um dia desses, enquanto caminhava, fechei os olhos por uns instantes e pude sentir como se suas mãos estivessem tocando as minhas. E eu sorri, pois eu sempre odiei esse encontro de mãos até experimentar as suas. São esses pequenos momentos que te fazem especial, e como você um dia me disse: “Embora que de uma forma dadaísta, a gente sempre se encaixou.” Não é nada muito importante, mas eu só queria dividir isso com você porque mesmo que a gente não esteja se falando com frequência, eu ainda não perdi essa mania boba.
Estou ficando com sono agora e lembrando com nostalgia de quando dormíamos juntos e eu fazia cafuné em seus cabelos enquanto te observava dormir docemente. Você parecia um anjo com a cara do Bart Simpsons e ainda era a coisa mais bonita que eu já havia visto. Agora fecharei os olhos e tentarei não lembrar do seu abraço, do seu cheiro e de como tudo tomou um rumo diferente. Estou com medo. Preciso de você aqui. Mais uma vez. Ou talvez, nunca mais.

Durma bem, meu anjo. Te acolho essa noite em meus pensamentos.
4:03 da manhã. Até quando essa falta vai durar?

(Isabel Ribeiro)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Saboreio cada intervalo que antecede sua chegada pois eles denunciam o seu caminhar. Cada passo lento que tu ousas tomar me faz refletir sobre o teu suposto querer em estar aqui. Veraneios são bons, mas machucam e o futuro que nos trárá a saudade fará com que nossas memórias sejam alimentadas e alimentá-las significa querer revivê-las. Embora minhas vestes estejam limpas e meus pulsos enfeitados, atrevo-me a recolher toda a vaidade para poupar meu coração de teus descasos mascarados e peço que nem venhas. Meu mundo é de extrema entrega e fantasia, um homem que não sonha e não se arrisca não precisa perder seu tempo por aqui.
Que sejas pleno, e enquanto aqui estiver, que marque! Dúvidas não são mais necessárias em nosso caminho que já foi tão bombardeado pela demora. Vamos deixar algo de bom para guardar, algo que possa ser lembrado ao olharmos os muros, a lua, o lago e o lençol com o cheiro de lavanda que eu enfeitei minha cama ao te ver chegar.
Um abraço, um sorriso, uma pergunta e um visitante que decidiu ficar
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quarta-feira, 28 de novembro de 2012


Eu quero você! E quero da forma mais caótica possível. Quero-te por inteiro, sem receios e sem fugas, pelo menos dessa vez. Você pode ir embora depois, se quiser, mas que sejas pleno e dedicado enquanto estiver em meu espaço. 
Quero você da cabeça aos pés, mas pode guardar o seu coração, eu não preciso dele. Entenda que não se trata de sentimento, e sim, de finalização. Eu não preciso do seu telefone na minha agenda, basta você ter o meu e saber o caminho da minha casa. Não preciso que ponhas dinheiro em minha conta e nem me leves para jantar, preciso apenas da chave do seu apartamento e permissões para, sempre que houver vontade, eu entrar.
Quero uma viagem marcada e ocupações por uma semana inteira. Quero cama e banheira, chão e cozinha, mesa e cadeira. Quero convites inusitados, banhos demorados e olhares disfarçados, afinal, ninguém precisa saber do nosso caso. Podemos ser segredo, medo, parceiros. Que tal?
Convença-me de que tens algo melhor para fazer e eu mudarei minhas opções. Mas eu sei, seu corpo me chama para uma maratona em uma cama de solteiro e o meu concorda. O dia tem pressa em terminar e há assuntos para resolvermos. Aceite o que o desejo pede porque o tempo não vai nos esperar.

(Isabel Ribeiro)

sábado, 24 de novembro de 2012


Eu não sei o que é amor, entende? Não é nada pessoal. Não é que eu não goste de sua companhia e nem do seu macarrão ao molho, o fato é que a ideia de uma relação afetiva me apavora.
Cresci em um lar em que os sorrisos nos rostos só existiam nas fotografias, aqueles raros momentos em que toda a família se reunia para tentar disfarçar o caos que vivíamos diariamente. Eu confesso que gostava, era a única oportunidade em que via meus pais se abraçando e vivendo como um casal. Durava pouco tempo, mas isso sempre renovava a minha esperança.
Tenho medo e você não entende isso. Se eu não atendo sua ligação, se eu não aceito seu convite para sair, se eu não durmo na sua casa e se eu não conheço sua família é por puro medo. Eu não sei como retribuir esse afeto, eu não tenho alguém para te apresentar que te conte minhas histórias engraçadas e diga a você que sou uma boa menina. Eu não tenho nem um coração para te oferecer. Francamente, você ficará melhor sem mim.
Você tem uma vida pela frente. Suas viagens, seus amigos, seu curso de arquitetura e todo o seu sonho de formar uma família feliz. Eu tenho meu bar, meu violão, minha voz, e não acredito em felicidade. Tudo o que posso te oferecer é uma noite e nada mais. Amanhã não estarei mais aqui e espero que você não me procure. Aprendi que é mais fácil assim, menos doloroso. E tudo aquilo que não me causa dor, eu valorizo.


(Isabel Ribeiro)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012


Não lembro, exatamente, quando ela se tornou a mulher mais linda do mundo para mim. Talvez tenha sido no dia em que ficamos presos no elevador do nosso prédio e ela me acalmou como se eu fosse um bebê enquanto eu tentava respirar. Ou talvez tenha sido no dia em que o pai dela morreu e ela, desesperadamente, correu para o meu apartamento e ficamos assistindo filmes, comendo pipoca por 48 horas e ainda dormimos de conchinha. Mas, tenho quase certeza, que foi no dia em que ela me contou que estava namorando pela primeira vez, que eu percebi que ela era a mulher mais linda do mundo.
Tudo bem que, nem em sonho, eu sou o cara certo para ela, mas e daí? Entre um encontro e outro, ela sempre procurará como requisito em um novo namorado o que só encontrou no melhor amigo. Como um bom individualista, eu nunca tive planos de formar uma família com uma esposa, dois filhos e um cachorro poodle que comerá os meus sapatos, mas isso começou a fazer sentido desde que percebi que, durante toda a minha vida, ela esteve envolvida em meus projetos. Nunca a vi exclusivamente como uma irmã, eu sempre percebi que ela tinha jeito para namorada. Talvez não minha, mas dos outros. Embora vê-la agora como sendo dos “outros” é uma ideia absurda e desesperadora para mim.
Não sei como explicar a ela que de um dia pro outro eu percebi que estou apaixonado e passei a noite inteira chorando só em imaginar o casamento dela com outro cara. Isso soaria como uma piada e só pioraria a minha situação. Eu também não posso pedir que ela namore comigo porque não tenho nada a oferecer além de um chocolate quente, um apartamento apertado e um bilhete único.
As pessoas sempre disseram que um dia a gente iria se casar. É incrível como os adultos possuem essa capacidade para ver o amor nascer entre duas crianças e saber que ele só se relevará 15 anos depois. Seria mais fácil se a gente não tivesse crescido junto. Eu poderia ser esse cara que ela está conhecendo agora. Eu a chamaria pra sair, ela adoraria meu jeito descolado, eu me apaixonaria pelo sorriso dela e viveríamos felizes para sempre. Por que ser tão complicado?
Meu telefone toca, é uma mensagem dela dizendo: “Estou em nosso restaurante favorito! Vem pra cá, já fiz o nosso pedido”.
Talvez esse seja o nosso último jantar como amigos, talvez seja o nosso último jantar como conhecidos, mas será o primeiro jantar em que a tratarei e a verei como a mulher mais linda do mundo. A minha mulher mais linda do mundo.


(Isabel Ribeiro)