domingo, 10 de março de 2013



Encosto-me lentamente na poltrona do meu carro e a observo procurar suas chaves na bolsa. Sua cara de preocupada demonstra que está claramente convencida de que as esqueceu no bar e agora está perdida sem saber como entrará em casa. Pega o celular desesperadamente e procura um número para pedir socorro, eu teria certeza de que meu celular tocaria daqui a 5 segundos se eu ainda estivesse em sua agenda telefônica. Questiono o porquê de ainda estar escondido dentro do carro ao invés de ajudar uma donzela em perigo. E a resposta vem claramente me dizer que o mesmo motivo que me mantem aqui sentado é a covardia que me fez deixa-la ir embora. Percebo que a sua tentativa de ajuda pelo do celular fracassou ao vê-la batendo os pés e fazendo cara de choro, maldito jeitinho teimoso que sempre me deixou na situação de um pai protetor. Levanto em um só impulso e saio do carro. Pego meu molho de chaves e vou em direção a ela sem saber exatamente o que dizer. Tenho a brilhante ideia de apenas erguer as mãos e mostrar as chaves, ela vai se lembrar de que não pegou a chave extra de seu apartamento que tinha dado pouco antes de pedi-la em namoro, mas a ideia fracassa quando ela percebe minha presença e logo pergunta: "O que está fazendo aqui?". Eu gostaria de dizer que estou ali para salvar sua vida, mas isso resultaria em muitas outras perguntas que eu não estou pronto para responder, gostaria de dizer também que ela está linda essa noite e que estou morrendo de saudades, dizer que eu errei e que a quero de volta em minha cama por  todos os dias da semana, mas apenas me limito a responder: "Você precisa de chaves. Aqui estão!". Natalie me olha com um olhar de detetive da série CSI e pega as chaves de minhas mãos. Suspira e sem me olhar nos olhos resolve estabelecer um diálogo já que estou parado como um poste em frente ao seu portão.
 Não acredito que ainda tenha a chave do meu apartamento. O que pretendia guardando isso? 
 Ela pergunta ironicamente.
 Não sei exatamente. Acho que sempre pretendi agarrá-la no meio da noite.  Eu sabia que não era o momento para piadas idiotas, mas eu só sei fazer isso e ela iria entender.
Nat ignora minha resposta com uma cara de quem não dá a mínima para o fato de eu estar ali e só gostaria de entender o porquê eu ainda não fui embora. Quando ela demonstra qualquer reação que fosse resultar em uma pergunta, eu a interrompo:
 Eu também não sei o que estou fazendo aqui em um sábado a noite e com as chaves da sua casa na mão. Não espero que você me convide para entrar, mas eu gostaria de conversar com você. 
 Eu sento-me no chão e pego em suas mãos. Ela me olha sem entender e eu continuo:  Você pode se sentar aqui? Olhe, eu coloco minha jaqueta aqui. Não vai sujar o seu vestido. 
Forro minha jaqueta no chão e como uma linda dama, ela se senta, recolhendo suas pernas para junto de si e fica em silêncio, sem me olhar ao menos um momento. Entendo que ela não estava preparada para isso e que a qualquer momento ela desabará em meus braços tudo o que sufocou durante muito tempo.
 Antes que você diga qualquer coisa, tenha consciência de que você já me fez mal demais para uma vida só. 
 Sua voz de choro me comove. Quero abraça-la, mas ainda não é o momento.
 Não quero te fazer mal, Natalie. Eu só quero ficar aqui, com você. Sentados. Quero sentir você perto novamente e ter, apenas por um minuto, a paz que não tenho desde que você foi embora. Quero te contar como foi meu dia no trabalho e ouvir você dizer que eu tenho força para superar e modificar qualquer coisa. Quero saber que você está aqui e não nos braços de um outro cara qualquer. Quero tirar a culpa, tirar o medo, tirar a solidão.
Eu pego em suas mãos, ela recua. Tento novamente e seguro firme. As lágrimas caem dos nossos olhos e ela se deixa cair em meus braços e sem dizer uma palavra, ela chora.
Eu afago seus cabelos em minhas mãos e sussurro em seus ouvidos: "Me perdoe! Eu percebi um pouco tarde que você é a única que me arranca sorrisos quando visitas meus pensamentos". Com seus olhos chorosos, minha pequena se levanta e pega minha jaqueta e coloca nos braços. Retira a chave de seu apartamento do meu mole de chaves e me devolve. Eu fico sem entender, quase imploro por uma palavra, mas sei que ela não está disposta a falar. Ela abre a porta do prédio, me olha bem nitidamente com seus olhos verdes e úmidos e diz:
 Boa noite, Daniel. Obrigada pelas chaves!
Ela fecha a porta e eu fico pateticamente sozinho às 3 horas da manhã em uma rua com 300 pontos de interrogações em minha cabeça. Penso em gritar e dizer que ela não pode me deixar assim. Eu não esperava por um silêncio, eu espera por gritos e palavrões e esperava por uma certeza de um sim ou de um não. Porém a única reação que tenho é entrar em meu carro e voltar para a minha casa em uma madrugada fria e sombria.
Chego em casa, a secretária telefônica apita. Uma mensagem. Boto para reproduzir.
 Hey, aqui é Daniel Wilson. Não estou, mas pode falar que respondo depois. Piii
 Dan? Aqui é a Natalie. Sua jaqueta ficou comigo e eu pensei que você poderia buscá-la amanhã... eu cozinharei. Bom, se quiser ficar pra jantar. Enfim... se cuide!

Diante de todo ecstasy que envolve meu corpo, eu só consigo sorrir ao saber que ela ainda guarda o meu número em sua agenda.

(Isabel Ribeiro)

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