
Ele é provavelmente mais um daqueles caras com baixa
auto-estima que ouve músicas estranhas, passa noites lendo livros de auto-ajuda
e usa jeans num encontro à noite justo no restaurante mais chique da Cidade.
Interrompo meus pensamentos cheios de julgamentos preconceituosos e começo a
prestar a atenção em como suas mãos estão agitadas uma por cima da outra, ele mal consegue me olhar nos olhos. Solto
uma risada irônica e me pergunto em pensamento “O que estou fazendo aqui?”. O
garçom chega para anotar o pedido e me tira da minha vibe louca, olho para James
dou um sorriso e volto ao garçom pedindo que o mesmo anote o pedido. Peço para
a Entrada um “Pissaladière”, e como Prato Principal “Ensopado de vitela à provençal”,
James me olha com uma cara de surpreso, mas não faz nenhum comentário, apenas
pega o cardápio de uma maneira desajeitada e começa a olhá-lo atenciosamente,
mas ao mostrar seu pedido para o garçom, ele deixa o cardápio cair fazendo com
que algumas folhas acabem arrebentando (lá vamos nós acrescentar folhas na
conta), ele me olha e dá um sorriso sem graça, eu não retribuo. Ele diz ao
garçom:
- Quero a mesma coisa que ela. – Que cara mais sem opinião própria!
Ele começa a puxar uma conversa constrangedora comigo sobre como nos conhecemos
na festa de formatura do meu primo e da irmã dele, essa conversa é um tanto
constrangedora porque eu não consigo me lembrar da metade do que fiz e acabo
dizendo apenas “aham” e “uhum” e ele percebe que não tenho o mínimo interesse
nisso tudo. Então ele aproxima sua cadeira, segura em minhas mãos (sinto um
frio imenso na barriga) e me olha com uma auto-confiança que nunca imaginei que
fosse capaz de existir naquela pessoa e diz:
- Desculpe, mas não quero lhe causar fadiga. Podemos ir embora se você quiser.
Mas digo com total certeza que você irá se arrepender de não se permitir
conhecer o cara mais incrível que já cruzou o seu caminho. – Ele solta o sorriso mais espontâneo que já
vi.
Fico meio sem graça e só digo:
- Não quero ir embora. – E engraçado que não queria mesmo.
A conversa começa a fluir repentinamente, começamos a conversar sobre nossos
traumas infantis, sobre nossos micos, sobre como o Rod Stewart é legal e sobre
como o nível dos filmes americanos caiu. Temos mais coisas em comum do que
imaginamos. Por um momento não me sinto em nenhum outro lugar, se não, em casa.
Começo a prestar a atenção em como ele é detalhista e conta suas experiências
com muito entusiasmo e admiração, ele é atencioso e se preocupa em me fazer
mergulhar pela história da vida dele. Vejo seu olhar vindo de encontro ao meu e
um sorriso tímido surge em ambos os lábios. “Putz! Ele é encantador!”
permito-me pensar. Digo que preciso ir retocar a maquiagem e levanto um pouco
tímida e tenho quase certeza que ele olhou para a minha bunda achatada nesse
vestido apertado. Logo que olho no espelho,
vejo o meu semblante de satisfação, como nunca tinha visto antes e
percebo que algo está dando certo, pela primeira vez. Retorno à mesa e ele me
recebe com seu sorriso esplendoroso e diz que quase pensou que eu estava tão
cansada dele que iria abandoná-lo sozinho no restaurante, eu ri, imaginando ser
uma coisa impossível. Eu jamais faria isso, não com ele.
Percebemos que a hora havia passado mais rápido do que imaginávamos e decidimos
ir embora. Fomos caminhando lentamente pelos zigue-zagues do calçadão até o
carro dele. De repente notei que seus
braços me envolviam meio sem jeito, senti o calor aconchegante de seu corpo e
era impossível renunciar a essa entrega. Eu não sabia o que iria rolar daquele
momento em diante, eu não sabia onde eu iria acordar na manhã seguinte, mas eu
não ia renunciar a nada. Ele não era como os caras anteriores que me abraçavam
para me empurrar depois. Ele queria me proteger, me aquecer, me cuidar. Ele era
diferente, não por ser o menos bonito ou o mais desajeitado, mas por ser
inexplicavelmente perfeito.
(Isabel Ribeiro)