
Encosto-me lentamente na
poltrona do meu carro e a observo procurar suas chaves na bolsa. Sua cara de
preocupada demonstra que está claramente convencida de que as esqueceu no bar e
agora está perdida sem saber como entrará em casa. Pega o celular desesperadamente
e procura um número para pedir socorro, eu teria certeza de que meu celular
tocaria daqui a 5 segundos se eu ainda estivesse em sua agenda telefônica.
Questiono o porquê de ainda estar escondido dentro do carro ao invés de ajudar
uma donzela em perigo. E a resposta vem claramente me dizer que o mesmo motivo
que me mantem aqui sentado é a covardia que me fez deixa-la ir embora. Percebo
que a sua tentativa de ajuda pelo do celular fracassou ao vê-la batendo os pés
e fazendo cara de choro, maldito jeitinho teimoso que sempre me deixou na
situação de um pai protetor. Levanto em um só impulso e saio do carro. Pego meu
molho de chaves e vou em direção a ela sem saber exatamente o que dizer. Tenho
a brilhante ideia de apenas erguer as mãos e mostrar as chaves, ela vai se
lembrar de que não pegou a chave extra de seu apartamento que tinha dado pouco
antes de pedi-la em namoro, mas a ideia fracassa quando ela percebe minha
presença e logo pergunta: "O que está fazendo aqui?". Eu gostaria de
dizer que estou ali para salvar sua vida, mas isso resultaria em muitas outras
perguntas que eu não estou pronto para responder, gostaria de dizer também que
ela está linda essa noite e que estou morrendo de saudades, dizer que eu errei
e que a quero de volta em minha cama por
todos os dias da semana, mas apenas me limito a responder: "Você
precisa de chaves. Aqui estão!". Natalie me olha com um olhar de detetive
da série CSI e pega as chaves de minhas mãos. Suspira e sem me olhar nos olhos
resolve estabelecer um diálogo já que estou parado como um poste em frente ao
seu portão.
– Não acredito que ainda tenha a chave do meu apartamento. O que pretendia
guardando isso? – Ela pergunta ironicamente.
– Não sei exatamente. Acho que sempre pretendi agarrá-la no meio da noite. – Eu
sabia que não era o momento para piadas idiotas, mas eu só sei fazer isso e ela
iria entender.
Nat ignora minha resposta com uma cara de quem não dá a mínima para o fato de
eu estar ali e só gostaria de entender o porquê eu ainda não fui embora. Quando
ela demonstra qualquer reação que fosse resultar em uma pergunta, eu a
interrompo:
– Eu também não sei o que estou fazendo aqui em um sábado a noite e com as
chaves da sua casa na mão. Não espero que você me convide para entrar, mas eu
gostaria de conversar com você. – Eu sento-me no chão e pego em suas mãos. Ela
me olha sem entender e eu continuo: – Você pode se sentar aqui? Olhe, eu coloco
minha jaqueta aqui. Não vai sujar o seu vestido.
Forro minha jaqueta no chão e como uma linda dama, ela se senta, recolhendo
suas pernas para junto de si e fica em silêncio, sem me olhar ao menos um
momento. Entendo que ela não estava preparada para isso e que a qualquer
momento ela desabará em meus braços tudo o que sufocou durante muito tempo.
– Antes que você diga qualquer coisa, tenha consciência de que você já me fez
mal demais para uma vida só. – Sua voz de choro me comove. Quero abraça-la, mas
ainda não é o momento.
– Não quero te fazer mal, Natalie. Eu só quero ficar aqui, com você. Sentados.
Quero sentir você perto novamente e ter, apenas por um minuto, a paz que não
tenho desde que você foi embora. Quero te contar como foi meu dia no trabalho e
ouvir você dizer que eu tenho força para superar e modificar qualquer coisa.
Quero saber que você está aqui e não nos braços de um outro cara qualquer.
Quero tirar a culpa, tirar o medo, tirar a solidão.
Eu pego em suas mãos, ela recua. Tento novamente e seguro firme. As lágrimas
caem dos nossos olhos e ela se deixa cair em meus braços e sem dizer uma
palavra, ela chora.
Eu afago seus cabelos em minhas mãos e sussurro em seus ouvidos: "Me
perdoe! Eu percebi um pouco tarde que você é a única que me arranca sorrisos
quando visitas meus pensamentos". Com seus olhos chorosos, minha pequena se levanta e
pega minha jaqueta e coloca nos braços. Retira a chave de seu apartamento do
meu mole de chaves e me devolve. Eu fico sem entender, quase imploro por uma
palavra, mas sei que ela não está disposta a falar. Ela abre a porta do prédio,
me olha bem nitidamente com seus olhos verdes e úmidos e diz:
– Boa noite, Daniel. Obrigada pelas chaves!
Ela fecha a porta e eu fico pateticamente sozinho às 3 horas da manhã em uma
rua com 300 pontos de interrogações em minha cabeça. Penso em gritar e dizer
que ela não pode me deixar assim. Eu não esperava por um silêncio, eu espera
por gritos e palavrões e esperava por uma certeza de um sim ou de um não. Porém
a única reação que tenho é entrar em meu carro e voltar para a minha casa em
uma madrugada fria e sombria.
Chego em casa, a secretária telefônica apita. Uma mensagem. Boto para
reproduzir.
– Hey, aqui é Daniel Wilson. Não estou, mas pode falar que respondo depois. Piii
– Dan? Aqui é a Natalie. Sua jaqueta ficou comigo e eu pensei que você poderia
buscá-la amanhã... eu cozinharei. Bom, se quiser ficar pra jantar. Enfim... se
cuide!
Diante de todo ecstasy que envolve meu corpo, eu só consigo sorrir ao saber que
ela ainda guarda o meu número em sua agenda.
(Isabel Ribeiro)